segunda-feira, 18 de abril de 2011

Primeiro Contato com um Centro de Umbanda.

Queira ou não, seja politicamente incorreto ou não, é claro que eu tinha preconceito contra um centro de Umbanda. Na verdade, todo aquele que não sabe exatamente o que ocorre lá e disser que não tem preconceito, de cderta forma já vai estar sendo um pouco hipócrita. Temos tantos relatos que vão de filmes a comentários de "bar" sobre o que ocorre nestes espaços religiosos, que é impossível não ter uma imagem pré-formada, e portanto, de certa forma preconceituosa (ainda que seja um preconceito em crer que será de alguma forma "melhor" do que o esperado)

Fui convidado por uma amiga, ex ateia, logo após a separação, o que realmente me garantiu o interesse. Afinal uma pessoa racional ao extremo de repente ser levada a ir para um local que a princípio remete a uma ideia de uma religião tão primitiva, ao ponto de ser politeísta, e ao mesmo tempo tão sincrética, faz pensar que pode haver algo lá a mais do que se imaginava.

Seja como for, primeiro aviso a todos os que desejem esse conhecimento. Não vão vestidos de preto a não ser que seja o dia de se ir vestido de preto. É incrível como que um aviso tão simples não é dado a pessoas desavisadas que como eu, desconhecem por completo essa cultura.

Seja como for, ao chegar, um espanto. O local era muito semelhante a uma igreja. Com banquinhos simpes, todos voltados para um mesmo lugar, que seria semelhante a um altar, se não estivesse fechado por uma cortina. Lá atrás, uma mistura de batucadas e músicas em homenagem a Deus, Jesus e Maria. Apesar de nas paredes haverem vários desenhos a entidades desconhecidas por mim, um grupo de três irmãos de olhos brilhantes, um homem idoso negro encurvado, um índio, entre outros que se assemelhavam mais a santos católicos, apesar disso, as músicas falavam de Deus. Como pode uma cultura que crê na existência de vários deuses falar em Deus, não fazia sentido. (o mais interessante é que depois simplesmente descobri que realmente não faz muito sentido, é apenas a união de elementos que vistos racionamente não parecem fazer mesmo sentido)

Seja como for, inicia-se com um homem explicando que aquele dia seria das crianças, dia dos "erês", apesar de ninguém explicar direito nada, uma senhora ao meu lado, bondosamente, me explicou depois que se tratavam de crianças que morriam aqui na terra, mas que eram tão evoluídas que não precisavam reencarnar, por isso serviriam de guias para ajudar as pessoas na terra a evoluírem também. Seja como for, após ouvir tal explicação, fui assistindo atento. Imaginei que crianças entrariam, uma festa das crianças, algo do tipo. Realmente haviam algumas crianças presente no espaço, que depois descobri que se chamava de terreiro (sem a presença física de terra alguma, para meu espanto).

Como se fosse em uma igreja evangélica, houve o momento do testemunho, inicialmente uma mulher teria sido sorteada com mais 30 pessoas, de um grupo de milhares, para receber uma casa do governo, e agradecia aos orixás (há pouco o hino agradecia a Deus por todas as vitórias). Cheguei, na verdade, a acreditar, por um instante, que o nome "orixá" seria uma espécie de "atributo de Deus", como se fosse alguém em uma igreja agradecendo ao "amor de Deus" por exemplo, mas utilizando-se de um nome desconhecido que poderia parecer deificado (como já vi ocorre em igrejas onde dizem que a Graça de Deus é uma entidade a parte de Deus)

Após isso começou a parte diferente. Na verdade, muito diferente do que eu imaginaria. Várias pessoas, que depois descobri que ocupavam o cargo de "cavalos" começavam a "incorporar" as tais crianças desencarnadas. Neste momento houve uma grande distrubuição de doces. Todos os tipos diferentes de doces distribuídos tanto aos que assistiam, mas especialmente às tais pessoas que agora tinham incorporado as crianças. É interessante perceber que a maior parte do trabalho religioso ocorre assim, de forma pessoal, ao contrário de qualquer igreja. Há uma senha e a pessoa se "consulta" especificamente com uma outra por alguns minutos, são vários o que incorporam, de modo que esses 10 a 20% do total atendem todos os outros em um tempo não significativamente grande.

Seja como for, meu olhar, é claro, permanecia distante. Inicialmente pensei em não pegar a senha, mas depois vi que a única forma de realmente entender melhor o que estava acontecendo era conversar com a tal criança incorporada. Alguns elementos entretanto não podem ser deixados de lado. Primeiro, a olhos racionais (ou racionalistas) não é possível, ainda que com o desejo de fazê-lo, que possa ter ocorrido tal incorporação de fato. Primeiro porque as tais "crianças" eram muito mais um esteriótipo mal feito do que um adulto crê que uma criança seja do que uma criança de fato. Lembrem-se que sou professor e trabalho cercado de crianças todos os dias. As tais "crianças" incorporadas eram mil vezes mais mimadas que os piores dos meus alunos mimados. Pareciam muito mais advir de um adulto que irritado com seu filho, resolve em alguns minutos reproduzir aleatoriamente todas as atitudes mimadas que o menino realizou em um mês. Houve choro, puxões de cabelo, refrigerantes jogados, crianças gritando no desespero que queriam alguma coisa, entre outros. Aparentamente nenhuma das "crianças" que não reencarnariam por serem "muirto evoluídas" entendia nada de boas maneiras ou mesmo que fosse, de qualquer desejo que não parecesse puramente irracional. Veja, se a 1000 alunos eu distribuir 1000 balas, de fato, não terei quase chance alguma deles brigarem pela bala do outro ou pior ainda, verei essas balas voando ao invés de serem chupadas.

Seja como for, outro elemento ficou bem claro que mostrava a impossibilidade de realmente se tratarem de "crianças incorporadas" pois ao mesmo tempo que aquelas crianças tão mimadas ao extremo, faziam "loucuras" que aparentamente deveriam simular uma criança real, muitas tinham a consciência clara de autopreservação e do perigo, o que é comum muito mais a adultos (e muito raro em crianças pequenas). Por exemplo, é muito mais simples que ver um aluno de 6 anos tomando um pode de cola, pois está a mão, do que pegar uma bala e ao invés de pôr na boca jogar no colega. Entretanto, durante o tal ritual, havia várias velas acessas, e nenhuma das "crianças" derrubou nenhuma nelas, pelo contrário, em diversas situações de perigo simplesmente esqueceram que eram crianças por alguns instantes e foram auxiliar a garantir a segurança contra incêndio. Não pegaram nenhuma das balas do chão para colocar nas boas ou puseram objetos que não fossem os doces nas bocas.

Ainda mais, haviam crianças  "de fato" presente  lá, no meio dos adultos incorporados. Estas, especialmente as menores, assustaram-se com verem seus pais agindo de forma tão estranha, e com isso, alguns pais "incorporados" em crianças ultra mimadas e inconsequentes, misteriosamente, pegaram seus filhos no colo e os consolaram, de forma, agora, apenas relativamente infantil, mas que demonstra claramente a prioridade de consolar o seu filho, o que jamais ocorreria em uma criança mimada com os comportamento descritos anteriormente.

Enquanto esperava minha vez de ir falar com a "criança" fiquei vendo aquela cena e por um instante tive a vontade de rir. Tive de me segurar em respeito à fé das pessoas ali presentes. Entretanto, ver dezenas de adultos agindo loucamente como crianças, consumindo quantidades absurdas de doces (calculo uma média de 3.000 calorias) gritando, empurrando, só pude pensar uma coisa. Ao menos isso deve ser terapeutico. Fazer aquilo se teve a vontade. Independente de qualquer questão de fé algum psicólogo ainda vai analisar isso e recomendar para descontrair. Por outro lado, vendo por uma ótica séria, confesso que parecia muito difícil de se "levar a sério".


Seja como for, chegou enfim meu momento de ir conversar com a minha "criança". A princípio me questionou o que eu queria ali. Eu disse que queria sabedoria e paz. Não menti, na verdade era uma resposta sincera do que eu mais desejava mesmo. Mesmo assim a criança não entendeu (vai ver que já era uma criança capitalista) insistiu saber se eu queria mais dinheiro, promoção no trabalho, se eu estava com a saúde ruim, se queria que alguém doente sarasse, e a tudo eu sempre respondi que não. Inclusive levei uma "bronca" da criança ao ser instruído que o nome correto não era "dinheiro" mas sim "pataca". Para quem desconhece, pataca é uma moeda de prata utilizada por Portugal, durante a época de seu império ultramarino, deixando de ser usada no Brasil após a independência. Ou seja, essas crianças deveriam estar desencarnadas há muito tempo, estranhamente, entretanto, sabiam perguntar se eu desejava um carro novo.
Ainda nesta "consulta" a criança continuou suas perguntas até achar algo que eu respondesse "sim", no caso, se eu achava que as pessoas não reconheciam meus esforços na medida certa. Então começou a me dar conselhos, dizendo que eu deveria valorizar mais a mim mesmo, entre outras coisas (semelhante a um livro de auto ajuda) fez um benzimento e me deu 3 bolinhas de gude, dizendo que em momentos de nervosismo e ansiedade deveria passar elas por entre os dedos (técnica de meditação budista, essas crianças tem um pé na filosofia oriental)

Seja como for, minha ideia original se demonstrou completamente errada. Primeiramente, apesar da estranheza sobre o nome "cavalo" não houve qualquer evocação específica a atos perversos, maldosos, e nem qualquer ação demoníaca em si (parecia mais uma brincadeira infantilizada do que um culto demoníaco) Além disso, a consulta direta e pessoal pareceu um ponto muito favorável, que algumas igrejas, especialmente as gigantescas e impessoais, deveriam adotar. Mas acima de tudo, a PRINCIPAL CARACTERÍSTICA POSITIVA que vi, foi que EM MOMENTO ALGUM houve qualquer menção a receber dinheiro, a precisar dar, pagar, comprar, qualquer ítem para ser abençoado. Mesmo os trabalhos que poderiam ser feitos para conseguir as tais bençãos materiais eram feitos com coisas compradas em outros locais, e normalmente simples. (nada de matança de bode) - pelo contrário, ganhei bolinhas de gude e poderia ter comido uns R$ 10 a R$ 15,00 de doces, caso desejasse e não me importasse com a glicemia ou calorias. Neste ponto penso, como é gigantescamente vergonhoso o que ocorre nas igrejas evangélicas, se até mesmo um centro de Umbanda consegue ter um trabalho sem qualquer menção a se entregar posses em nome de uma instituição.