Nome: Leandro Villela de Azevedo
Nascimento: 03 de fevereiro de 1980
Titulação: Doutor em História Social (USP-2011)
Formação: História (USP-2001)
Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4765492H6
Experiência de Pesquisa: Desde a época da faculdade me interesso por história das religiões. Sendo que nas USP criamos um grupo de estudo de religião e mitologia (GERM) que teve duração de um ano. Meu mestrado teve como tema a comparação das narrativas judaicas medievais (midrash) e do alcorão, usando a figura de José do Egito como eixo comparativo. Em meu doutorado estudei as obras inglesas de John Wycliffe, pré-reformista herético do século XIV na Inglaterra, e a sua teoria da não possibilidade da institucionalização da Igreja. Neste meio tempo criei a i-TV, um canal no youtube com críticas à manipulação religiosa e comércio das coisa de Deus estabelecido em igrejas evangélicas, fui entrevistado na rede Gospel, da Igreja Renascer e em algumas rádios evangélicas. Além de ter participado de eventos no Mackenzie a respeito da história do cristianismo, entre outros.
Trajetória de Contato com a fé: Estudei em um colégio Católico, na verdade em dois. Inicialmente no Santa Marcelina, de freiras e o fundamental 2 e médio no Santo Américo, de padres. Durante esses anos pude aprender muitos elementos da fé católica, não somente nas auls de religião, obrigatórios lá, mas também em eventos, conversas com os religiosos entre outros. Apesar de muito me interessar pelo tema, ao mesmo tempo queria aprender e ter um contato maior com Deus, sentia dor na hipocrisia que via no dia a dia. Os colegas que iam para as aulas de crisma para arrumar "pegar as minas", como eles sempre eram elogiados como pessoas de bom coração apenas por cumprirem ritos específicos, e contribuirem financeiramente para causas. Como na que na prática, o discurso era muito diferente da prática. Ainda na escola entrei em contato com dois grupos católicos muito diferentes um do outro. O primeiro chamado "Comunhão e Libertação" e o outro "Opus Dei", completos opostos mas que por algum motivo me atiçaram, uma vez que, nos opostos, eu via sinceridade de ações mais do que a hipocrisia do dia a dia na qual eu estava acostumado. É claro que apesar disso, vi de perto como que o extremismo pode ser prejudicial. Viver de acordo com sua fé é uma coisa, viver escravo de líderes que manipulam sua fé extrema, é outra. Neste caso me refiro muito mais ao último grupo citado, diga-se de passagem.
Seja como for, ainda muito jovem, na faculdade, me casei e me separei, e aprendi que pelas regras da Igreja Católica eu estava automaticamente excomungado, mesmo não tendo sido eu a pessoa que desejou a separação. Por mais que 99,9% dos que se diziam católicos não concordassem com isso, simplesmente desanimei da fé. Como podem as pessoas seguirem uma religião que em si é tão contraditória, pensava eu. Uma vez que muitas vezes, o que afirma, nega. O próprio livro base de sua fé precisa ser filtrado por uma tradição, a própria tradição que remete ao cristianismo primitivo precisa ser negada para justificar as práticas medievais, os prórios dogmas medievais precisam ser negados para se encaixar na sociedade atual. Neste momento voltei-me ao ateísmo, o qual, por sinal, já me fascinava desde muito cedo. Isso porque Deus sempre foi uma ideia muito bela para a qual eu sempre desejei que existisse, mas ao mesmo tempo não acreditava que algo tão fantástico pudesse mesmo existir. E como alguns críticos da Igreja Católica já diziam, caso Deus existisse a primeira coisa que Ele faria era destruir a Igreja, para ser fiel aos ensinamentos da mesma.
Entretanto, minha fase de ateísmo também não teve uma duração tão grande, uma vez que comecei a buscar Deus fora da Igreja Católica, no inttuito de aprender mais sobre essa coisa tão fantástica que é a fé. Ela move a vida de uma boa porcentagem da população mundial desde épocas muito remotas e não pode ser explicada pela simples manipulação das massas. Em algumas igrejas evangélicas encontrei elementos que eu não imaginava. O que mais me fascinava, desde sempre, na Igreja Católica era a igreja da minha avó, onde ela era "senhora de caridade", cuidavam de um bazar onde vendiam remédio por centavos que as farmácias doavam e com o dinheiro faziam alimento para os necessitados. Naquilo eu acreditava. Mas nunca havia visto NADA disso feito na igreja aqui em São Paulo. Então, passando por algumas igrejas evangélicas, vi que apesar daquela ideia de que estas sempre queriam tirar dinheiro das pessoas a todo custo, haviam aquelas que realmente estavam engajadas em ajudar as pessoas, levando ao mesmo tempo conforto material e aconselhamento psicológico ou espiritual.
Neste contexto me redescobri com Deus, aprendi que era possível sim ter fé, uma fé saudável que fosse marcada pela dedicação de ajudar as pessoas, e aprendi a confiar nisso. Algo difícil de se descrever, a não ser para quem experimenta. O deixar-se levar pela situação, o "pular", arriscando-se, para cumprir o objetivo de ajudar os outros. Por exemplo, certa vez estávamos criando uma festa para 100 crianças em uma favela, eu tinha apenas metade do dinheiro necessário para a comida, e fiz a coisa mais insensata que poderia fazer, joguei tudo em um jogo de aposta, algo completamente desaconselhável por quem quer que seja, e incrivelmente ganhei, e reverti tudo para a festa das crianças necessitadas, que foram alimentadas, ganharam brinquedos e ainda ouviram diversas histórias que eu contei.
Nesse momento tínhamos uma pequena igreja de 4 pessoas, filial de uma Quadrangula, ali, naquele ambiente completamente diferente, éramos apenas quatro, sem hierarquia, sem divisão de tarefas clara, ainda que existisse uma "pastora", onde ela, seu marido, um convidado e uma velhinha que era dona do salão onde a igreja se reunia, fomos criando uma igreja (seis no total, contanto a mim e a minha esposa) Lá criamos um cursinho comunitário que ocorria em minha casa, peças de teatros para crianças, jogos de RPG para os jovens, e outras atividades culturais. Logo a igreja ficou cheia, umas 30 ou 40 pessoas (o máximo que cabia no pequeno salão) e era centrada sempre para ajudar as pessoas.
Mas vejam, éramos apenas jovens, sem dinheiro, não dávamos lucros para a igreja sede. Quando a velhinha piorou de saúde, fomos tirados de lá, a igreja passou a se reunir nas casas das pessoas, e assim durou por mais de um ano. Neste mesmo momento, eu já estava horrorisado pelo que via acontecendo em outras igrejas. Como a tal teologia da prosperidade, aquela onde um pastor promete que Deus te deixará rico se você entregar todo o seu dinheiro nas mãos dele, já tinha dominado a maior parte das igrejas. Em um misto de igrejas que expulsam e acusam por costumes meramente culturais e arcaicos e outras que são verdadeiras empresas especializadas em vender uma falsa ideia de sucesso financeiro, senti-me só, no desespero, em um mundo de hipocrisia religiosa novamente.
Com a minha separação perdi a grande companheira de fé que tinha, uma das raras pessoas para a qual eu podia compartilhar em absoluto qualquer pensamento a respeito da minha fé, ainda que isso gerasse discordâncias, mas era honesto, não era hipócrita. Ao mesmo tempo, sempre soube que minha busca de Deus não se limitava a esta ou aquela religião específica. Pois creio que se Deus realmente existe (e tenho motivos para dizer que sim, muito embora de uma forma talvez MUITO diferente do que se ensine por aí) e se Deus existe, então Ele existe desde sempre em todos os lugares e em todas as culturas, muito embora cada grupo o tenha percebido de forma diferente e diversa. Então o estudo de todas as religiões é importante de deve ser feito. Assim, separando-me de uma pessoa que ao mesmo tempo me era um porto seguro, mas também um fator limitante (devido ao preconceito e medo de visitar outros ambientes religiosos) resolvi que aproveitaria o terrível contratempo para visitar outros espaços relgiosos, conversar com outras pessoas e compartilharia essa jornada aqui com vocês.
Pretendo misturar os relatos das novas visitas, conversas e experiências com outros que já tive até agora, uma vez que minha jornada não se iniciou com a criação desse blog, mas estava já na metade (ou ao menos com os primeiros passos dados) assim sendo, apesar de não seguir uma ordem cronológica clara, creio que em uma nuvem de sentimentos, ideias e compartilhar de ideias, eu possa, talvez, contribuir, ainda que um pouco, para qualquer pessoa que também esteja na mesma busca que eu.
Leandro Villela de Azevedo